'O homem vulgar, por muito dura que lhe seja a vida, tem pelo menos a felicidade de não a pensar.'


Bernardo Soares in Livro do Desassossego






20/11/2008

Pulp - Disco 2000 (Different Class, 1995)

É inegável o revivalismo que sinto quando agora busco as origens do britrock ou britpop, movimento oriundo do underground londrino pertencente a um certo intelectualismo diletante, inescapavelmente niilista, correspondendo à moderna concepção de dandismo, desenquadradamente adaptados, relaxadamente alinhados, apontando o ridículo do normal, vaporando uma excentricidade moderada (ou irreverência disciplinada - os ingleses têm a palavra certa, kookiness), exaltando a distinção do indíviduo da multidão.
Ícones do ínicio como Pulp ou Suede, que recentemente voltei a procurar, fizeram-me reviver alguns sons eu ouvia já na pré-adolescência, como esta que aqui proponho. Sonoridade quase ejaculatória, letra e história simples (como em tudo o que é genial), e um vídeo de uma métrica clean e algo retro, glamoroso q.b..
Well we were born within one hour of each other.
Our mothers said we could be sister and brother.
Your name is Deborah... Deborah...
It never suited you...
Oh and they thought that when we grew up,
We'd get married, and never split up.
Oh we never did it... although often I thought of it...

Oh Deborah, do you recall? Your house was very small,
With wood chip on the wall. When I came around to call, you didnt notice me at all
So I said: Let's all meet up in the year 2000! Wont it be strange when were all fully grown?
Be there at 2 o'clock by the fountain down the road!
I never knew that youd get married... I would be living down here on my own
On that damp and lonely thursday years ago!

You were the first girl at school to get breasts,
And Martyn said that yours were the best!
Oh the boys all loved you but I was a mess...
I had to watch them trying to get you undressed.
We were friends, but that was as far as it went,
I used to walk you home sometimes but it meant,
Oh it meant nothing to you, 'cos you were so... popular

17/11/2008

Blur - The Story of the Charmless Man


I met him in a crowded room
Where people go to drink away their gloom
He sat me down and so began
The story of a charmless man

Educated the expensive way
He knows his claret from his beaujolais
I think he'd like to have been Ronnie Kray
But then Nature didnt make him that way...

He thinks his educated airs, those family shares,
Will protect him... that we'll respect him
He moves in circles of friends, who just pretend
That they like him; and he does the same to them
And when you put it all together:
Theres the model of a charmless man

He knows the swingers and their cavalry,
Says he can get in anywhere for free...
I began to go a little cross-eyed
And from this charmless man I just had to hide

He talks at speed, he gets nose bleed
He doesnt see his days are tumbling
Down upon him
And yet he tries so hard to please
Hes just so keen for you to listen
But no-ones listening
And when you put it all together:
Theres the model of a charmless man

'(...) O século globalizado já viu duas guerras mundiais de valores. Há vinte anos ainda se lutavam as últimas campanhas do primeiro embate civilizacional mundial, que começara cem anos antes. Tratava-se então de defender a empresa e o mercado contra ataques da sociedade socialista e economia planificada. Como agora, os agressores tinham a certeza de estar com o futuro, o que lhes dava uma raiva e arrogância imparáveis.

Hoje, os mais jovens não conseguem acreditar que ainda nos anos 1970 e 80 as visões marxistas não só eram activas mas consideravam-se a única alternativa razoável. Para os "progressistas" de então, não se tratava de um embate de ideias, mas da luta entre o futuro em ascensão e o passado bafiento, entre defensores da modernidade e cadáveres ideológicos que se desconheciam como tal. Hoje sabemos afinal que cadáveres eram os comunistas. Alguns poucos ainda mexem mas já não defendem nada. Limitam-se a atacar tudo. Saem do túmulo para bramar nas crises. (...)'

João César das Neves, DN 2008.11.17

10/11/2008

Triologia do Desalento – Parte II (escrito em 2008-09-16)

‘A vida é cor, é luz, é alegria, é movimento. E eu – numa palavra – sou apenas desalento. (…)’.
Jorge Fernando, Fado do Desalento

Odeio frequentemente a pessoa que sou. E sou um milhão de pessoas diferentes de um dia para o outro. Intelectualmente pedante, ofendo, debocho e ataco para, não raramente, mais tarde me contorcer com remorsos; a efemeridade das resoluções que tomo revelam-me que não tenho o mínimo sentido de mim. O meu medo primitivo é ser aquele que tento mudar, imutável, escrupulosamente imune. Temendo o sofrimento, sofro já aquilo que temo.

Mais do que a minha filosofia, mais do que o que escrevo, sou aquilo de que me tento libertar quando o faço. Sou os meus demónios – que tento exorcizar quando escrevo. Porque – tal como Eça – também creio que as cartas de um homem, sendo o produto quente e vibrante da sua vida, contêm mais verdade que a sua filosofia, que é apenas a criação impessoal do seu espírito. Uma vida que se confessa é objecto maior do intelectualismo, é a mais pura realidade humana: crua e egoísta, cheia de amor e de dor, saudade e orgulho.

A vida é um conjunto de acasos que se cruzam a que chamamos destino. O busílis da questão reside agora na dúvida da existência de um plano divinamente prévio, ou não passará tudo duma desordeira desilusão? Qual é a vida e qual é a morte, e qual delas vivo eu agora? Vivo: epifania gramatical do indicativo: eureka da minha prosa.

À escala do relógio solar, tomando como referência para a idade do planeta as vinte e quatro horas diárias, a passagem do Homem pela Terra só dura ainda há um segundo. A relatividade da nossa existência é arrebatadora. E depois de mim? O vácuo existente para além, o nada completo, a demoníaca paz. A resposta é titânica, a uma escala que não compreendemos. Não raramente tenho medo de descobrir a minha real índole; medo do meu destino ser bem maior que eu. Como posso eu morrer se correm por mim como rios tantas ideias, dúvidas, teorias, ânsias; extinguir-se-á com a morte toda a minha curiosidade, todo o meu infinito amor?

O que somos e a preponderância do nosso cunho na existência universal é irrisória. Nada do que eu faça significa. Só me resta o que eu sei e o que eu sinto agora. O eterno pensamento e o inacabável amor. Tudo mais são pormenores, rabiscos floreados num canto da breve sebenta que regista o sucedido entre o parto e o óbito. Resta-me a vontade e o consolo de fazer-lhe milhões de filhos, e em cada um deles amar um bocadinho dela. Porque nada mais somos senão efémeros. A nossa insignificância relativista é abismal. Qualquer coisa que alguém faça, por melhor ou pior que seja, é brutalmente indiferente. A impunidade não mais é senão inglória.

09/11/2008

OOOOOOooooohhhhhhhhhh it seems forever stoped today

all the lonely hearts in London caught a plain and flew away

03/11/2008

Vergílio Ferreira/ Norman Rockwell

'Não és um homem normal. Isso te é uma inferioridade (ou uma superioridade?). Como em tudo o que é diferente. Cultiva a tua diferença. Mas uma diferença pode ser negativa. Esse o teu drama. Porque a tua diferença vai além e fica aquém dos outros. Tu querias ser os outros no em que lhes és inferior e ser diferente no em que lhes és superior. Mas toda a superioridade se paga. Paga e não bufes.'
in 'Conta-Corrente 1'


'Nada ultrapassa o orgulho do rapaz que contempla a sua namorada, vestidos ambos a rigor para o baile, enquanto o homem do bar cheira deliciado a enorme flor que ela tem no vestido (After the Prom, Post, 25/Mai/1957). A maior parte dos artistas do século XX dedicaram-se a contemplar o demónio. Era fácil vê-lo então. No meio do horror, Rockwell preferiu ver Deus. Procurou-o num dos locais onde Ele gosta mais de estar: o próximo, através do dom divino da simpatia.'
João César das Neves, DN, 2008-11-03

30/10/2008

27/10/2008

To Write

The past of a messed up existence shall prevail on the way I write and feel, so I assume that some displicence, pride and prejudice are, somehow, part of an inviolated character. Although, I do show some respect to few, a few ones who are a lot on my peculiar scale. Certainly, English people including: role model of sobriety and manners; guide from any gentleman or lady along; cradle of public spirit.

A perfect gentleman should speak and write distinguished English. And this is not only my stand point - but the set of beliefs of Mr. Oscar Wilde, the same one who, in his grave of dead, layed out on a rented room which he couldn’t pay, digged on agony those which were, probably, his last words: “I die the same way I lived, much above my possibilities”.
Despite of still remaining writing on my mother language, I’ll start now, smoothly, without haste, to make my thoughts ephemeral, consecrated on paper eternally on the 'gentlemen speech'.

As I've been inspired by some of the socratic teachings, I know I don’t know much, however I have a few certainties in life until now:
1- The taste for an refined dandier existence, gathering with the pleasure and vice of thinking;
2- That kind of infinite certain which would make me tattoo every letter of her name on my arm or on my chest (me, who have always hated and absolutely scorn this type of 'native body embellishment');
3- And, finally, an inveterate and innate tendency for vanity, sometimes, from which I can't release myself. Consequently, I was no surprised when I totally reviewed myself in this lyrics I listened in the radio, one of these days. But even here, on my maxim absurdity, I can justify my own, arguing that mocking ourselves it’s a sarcastic, ironic reflex, only understood by few ones.

22/10/2008

'Look in the orient when the gracious light
Lifts up his burning head, each under eye
Doth homage to his new-appearing sight,
Serving with looks his sacred majesty;
And having climbed the steep-up heavenly hill,
Resembling strong youth in his middle age,
Yet mortal looks adore his beauty still,
Attending on his golden pilgrimage:
But when from highmost pitch, with weary car,
Like feeble age, he reeleth from the day,
The eyes, 'fore duteous, now converted are
From his low tract, and look another way:
So though, thyself outgoing in thy noon
Unlooked YOU will die unless you get a son.
'


William Shakespeare, Sonnet VII

14/10/2008

um pequeno aparte...

Da universalidade de inquirições e contestações de trivialidades que me são inerentes em razão do observadorismo extremo de que padeço, a condição patética do homem (homem e não Homem) surge-me porventura como das mais revoltantes visto tratar-se duma característica de género, que eu venha, tenha ou partilhe.
A minha colega de gabinete, mostrava-me agora mensagens de hi5 (antro de superficialidades revitalizadoras de egos, poço de Photoshop e manipulação de imagens, premonição ainda mais flagrante do momento decrépito da sociedade do que aquele novo programa da Teresa Guilherme), mensagens dum seu amigo(!) que aproveitava as novas tecnologias para iniciar o seu (primitivo) ritual de acasalamento, e a quem ela ridicularizava, lendo entre risos as deixas que o infeliz deixara como comentário às suas fotos sorridentes, e a sua réplica fria e seca, tornada pública a quem quer que consulte o seu perfil. O facto de eu conhecer o infeliz, que estratégica e honrosamente ocultei, fez-me despender cinco minutos do meu tempo para desabafar com o teclado.

A verdade, despida, sincera, é que temo tremendamente a subserviência da corte do homem. O curvar galante, submisso, inseguro, cheio de piadas fáceis e mornas (por conseguinte, estúpidas) politicamente correctas – não se vá ferir alguma susceptibilidade! – afigura-se perante mim como a mais patética condição masculina, a par com o suplício. Só o gatinhar comiserante perante a divindade feminina, soberba e toda-poderosa, precocemente emancipada (porque está, inegavelmente, no período de infância do seu estágio de igualização) pode ser tão ridiculamente redutor como o acto de implorar.

Depois de tantos anos duma condenável hegemonia masculina, corre-se agora o risco da tirânica ditadura feminina: crua, fria, impiedosa. É por isso que não corro atrás de mini-saias nem de mulheres de olhar errático nas discotecas. É por isso que nem sequer mudo de direcção se avisto alguma. Se o fizesse seria para tentar perceber carácteres enigmáticos, desafiantes para o meu modo subversivo. Mas de cada vez que agora lhes procuro o elemento transcendente captativo da minha atenção e devoção, sou ofuscado com batons berrantes, blush exagerado, unhas encarnadas, sandálias vistosas e malas espampanantes. Talvez a culpa seja minha, talvez sejam vítimas duma fácil descodificação, por força da minha tendência de tudo reduzir a estereótipos e generalizações...

13/10/2008

"A actual crise financeira tem multiplicado as reflexões de fundo sobre o sistema capitalista. Na maioria elas seguem uma teoria conspirativa, variante da luta de classes: existe uma elite que não só costuma explorar a massa do povo mas ainda gera estas terríveis convulsões com as suas imprudências. Tais ideias têm muito de verdade. São evidentes as fraudes, erros, crimes. Mas o mais dramático e curioso é que a crise não precisava disso para surgir. Ela pode acontecer mesmo sem qualquer falha, porque provém da natureza íntima do capitalismo.

A essência do nosso sistema económico é a liberdade de iniciativa. Cada um pode apresentar no mercado os produtos que quiser e, se forem preferidos pelos clientes, terá sucesso e prosperidade. Foi este sistema que gerou o incrível desenvolvimento da humanidade nos últimos dois séculos. Mas é também este mecanismo de experiência e tentativa, risco e atrevimento, que cria a instabilidade latente e recorrente na nossa vida. O tumulto não é acidente fortuito, mas elemento nuclear. Pode dizer-se que o capitalismo só floresce à beira do abismo.

O progresso nunca é ordeiro, calmo, planeado, mas uma permanente convulsão de criatividade e empreendimentos. Os sucessos são sobreviventes de muitas ideias que, apesar de boas e originais, ficaram pelo caminho. A coisa até corre mal mesmo quando corre bem.

Ainda alguém se lembra do Lisa, o computador que a Apple lançou em Janeiro de 1983? Era uma máquina impressionante, revolucionária, com novidades que perduram como o "rato", memória virtual, processamento múltiplo. Só que o pobre Lisa ficou na sombra do seu sucessor, o Apple Macintosh de Janeiro de 1984, que, esse sim, estabeleceu um padrão duradouro na tecnologia. Os desgraçados que compraram o Apple Lisa adquiriram um produto excelente mas logo obsoleto. São eles as vítimas do progresso.

Em grande medida é isso que está a acontecer no sector financeiro.

(...)

A este fenómeno têm de se juntar os elementos específicos do sector financeiro. Nas finanças lida-se directamente com moeda, que é uma responsabilidade directa do Estado. (...) Todas as instituições financeiras funcionam numa espécie de concessão pública. O Estado mantém-se o garante último do sistema monetário e tem poder absoluto sobre ele.

Por isso as recentes intervenções governamentais não são socialismo, keynesianismo, ou sequer intervencionismo. São do mais estrito e autêntico monetarismo. Foi Milton Friedman, supremo neoliberal, quem recomendou estas políticas para tratar crises deste tipo.

(...)

A raiva visceral de tantos à sociedade contemporânea tem aqui a sua justificação iniludível. Vivemos num mundo de prosperidade incomparável. Existe desigualdade, como sempre, mas muitos ganhos na medicina, comunicação, cultura e conforto até aos pobres beneficiam. Já nos esquecemos da terrível miséria antiga. Mas ao mesmo tempo experimentamos um clima ímpar de incerteza e instabilidade que nos assusta. Por isso, no meio dos benefícios, tantos se irritam e protestam. Só que abandonar o sistema por causa desses custos seria tão tonto como se o desgraçado que comprou o Lisa desistisse de usar computadores."

12/10/2008

09/10/2008

'Aquele que controla os outros tem força, mas aquele que se controla a si próprio tem o verdadeiro poder.'

07/09/2008

“If at first, the idea is not absurd, then there is no hope for it.” Albert Einstein

05/09/2008



'O ócio torna as horas lentas e os anos velozes. A actividade torna as horas rápidas e os anos lentos.' Cesare Pavese

23/08/2008

Triologia do Desalento - Parte I

'Man is least himself when he talks in his own person. Give him a mask, and he will tell you the truth.' Oscar Wilde

Espelhos: um irresistível magnetismo atrai-me para a amaldiçoada admiração. O reflexo da imensidão de mim condensados num corpo. O convergir do génio humano num bocado de matéria – mas que admirável construção! Foco-me errática e obsessivamente na riqueza de pormenores. Desejo blasfemicamente a multiplicação de mim. Regojizo-me com a ideia de ser eu, e de o ser para o resto da vida. Mas quando me apercebo que um espelho junto à cama me leva a um extâse tóxico, quer esteja sozinho ou acompanhado, pela assistência de mim próprio a toda a magnitude que em mim encontro, sou atropelado em reluzente epifania pela parábola de Narciso, aquele que depois de rejeitar Eco, a sua ninfa, por maldição vive o resto da vida apaixonado pelo seu próprio reflexo na água, acabando por se suicidar afogando-se.

Conheço a minha demência; saboreio-a. Sento-me e escrevo sobre ela. Fecho a porta e rodo a chave enferrujada da casa do Cercal onde repouso nestes dias do mês mais quente do ano para os demais, deprimente e paranóico para mim. Odeio Agosto. Na sala ouço a voz cortante da Júlia Pinheiro. Televisão, a droga dos felizes e conformados. Coitada dela, que assiste, enroscada num lençol fresco e amarrotado sobre um sofá antigo, de tipo senhorial, aos programas da hora em que o sol é demasiado perigoso para se estar na praia. É uma bébé entretida com um brinquedo colorido. Displicente e paternal, despertou-me um sorriso. Já vai longe a histérica gritaria de ontem, com as acusações gastas e o ouvi-la cabisbaixo, escondendo a indiferença, fingindo um afecto que não tem espaço em mim. No meu egocentrismo, estou demasiado dedicado aos meus exorcismos para pensar em mais alguma coisa. Leio, fumo, surfo. Penso e às vezes escrevo. Sabe-me bem estar aqui. Um homem pode ser feliz com qualquer mulher, desde que não a ame.

Sei agora que ela - o meu quarto de hotel - com todos os seus sonhos e aspirações, desejos e ânsias - ela que merecia ser um lar e não um poiso - afigura-se perante mim de forma tão aprazível quanto desprezível. Adoro-a, a minha amiga, com quem falo das coisas que entende, a quem invejo o pragmatismo e simplitude. Arruma a minha desarrumação, propicia-me todas as noites deitar-me em lençóis esticados e sacudidos, cozinha o jantar sob um lume hipnotizante e, parece-me que quase por magia, levanta e lava os pratos enquanto continuo letargicamente sentado à mesa, abraçado a um balão ardente que me alimenta a alma. E é, mais que isto, muito mais, aquela com quem sonho, não com ela mas através dela, por via da radiante semelhança do seu corpo e cabelo. Até o tom de voz que já só relembro remotamente. Quando me deito a seu lado viajo para aquele espaço-tempo diferente, tão rigorosamente delineado quanto irremediavelmente irreversível, de uma pureza e ternura que já morreram, e com elas toda a minha capacidade de amar. Não a amo. Não amo ninguém. Amo-a às escuras, por trás, em silêncio. Só a amo na minha loucura, na clonagem doentia da minha percepção deturpada.

Em época de redenção evito Narciso e o seu destino. Normalizar, aprender a ser como os demais, imitá-los, admirá-los, é trilho e meta para mim. Talvez assim consiga um dia sentir de novo o fascínio doutrora... pelos outros, por uma mulher. O homem a quem ninguém agrada é incomparavelmente mais infeliz do que aquele que não agrada a ninguém. Porque ao nos agradarmos demasiado, acabamos por estabelecer parâmetros sobrehumanos ao nosso próprio agrado. E viveremos enclausurados numa torre de intransigente exigência, cercados por um fosso de tormentosas comparações. Presos no momento, onde é tão mais fácil adulterar um Passado imperfeito, convencendo-nos da sua perfeição, do que planear um Futuro alternativo.


'Quem não estiver familiarizado com o sublime, sente o sublime como inquietante e falso.'

Friedrich Nietzsche, in A Vontade de Poder

13/08/2008

'É preferível ser violento, se houver violência nos nossos corações, do que vestir o manto da não-violência para encobrir a impotência.'

07/08/2008

London Calling


Não escrevo - não tenho tempo - a época estival que agora atravessamos ocupa-me suficientemente para não precisar do exorcismo recorrente da escrita. Mas as 2h05m que separam Heathrow International da cidade da minha vida sopram-me a saudade das palavras e da sua efemerização, da incursão até à esterilização da criação artística onde ser o melhor é aspiração natural para os novos pobres deste colégio interno.

Londres do céu carregado e da chuva miudinha; do fog matinal. Londres berço da História Moderna; monumental. Das paredes de tijolo e das grades baixinhas. Do Underground e da repetitiva 'Please mind the gap between the train and the platform'. Da insubestimável polidez das pessoas e do asseio das ruas. Do civismo e da amabilidade. Da minuciosa atenção aos pormenores e do metódico perfeccionismo. Da pacatez do Hyde Park e do frenesim da Oxford Street. Do misticismo do Thames e da boémia Picadilly Circus. Do classissismo das gravatas às riscas e do bom gosto do tweed. Da imperatividade dos botões de punho, dos colarinhos esticados e do anti-italianismo. Da sobriedade das cores e do padrão prince of wales. Da fenomenal heterogeneidade étnica e da enriquecedora pluriculturalidade. Do liberalismo e da abertura de mentalidades.

Londres do turismo, onde milhares seguem em procissões, de mapa na mão e câmara a tiracolo, de monumento em monumento, em verdadeira obsessão-compulsão, um mar de gente afunilando em todos os pontos relevantes anunciados pelos mapas das suas travel agencies, com horários religiosamente estipulados. Não foi essa Londres que conheci. Certamente que também parei e contemplei a Tower Bridge, vi o Big Ben e tirei uma foto no Buckingham Palace. Mas, felizmente, viajando com os meus pais, conhecedores de Londres e críticos acérrimos do mainstream, extremamente aversos a confusões e detentores de uma certa e abençoada inflexibilidade, pude gastar o meu tempo em vez de o consumir de acordo com os roteiros turístico-comerciais, e respirar a cidade e sentir o pulsar do povo que desde sempre mais me fascinou. Londres do orgulho e altivez. Da intransigência e da prepotência. Das transversais da Fleed Street e da City of Westminster. Dos musicais e das estreias mundiais. Da Fullham Broadway e dos brandies em Hampstead.

Londres das mulheres, da caramelosa suavidade da brancura idílica das suas peles, da formosa castidade que fugazmente deixam transparecer, do porte altivo, dos saltos altos e do andar majestático, do flutuar pincipesco, dos narizinhos arrebitados e das orelhas que, furtivas, tentam às vezes espreitar - para meu deleite - por detrás de um cabelo de boneca perfeitamente assente, mas tão solto que, com a mais leve brisa, parece ganhar vida própria. Ahh! como sinto agora que este é um sítio terrível para se estar com os pais, que vontade de as encontrar num bar e poder sussurar-lhes ao ouvido toda a sua magnitude, e depois sentir toda a sua fragilidade nos meus braços, o seu peso no meu colo, a sua vontade na minha, dominante.

Minucioso, ou maníaco, com o olhar triunfantemente errático, observando and getting breathtaked, de rua em rua, esquina em esquina, foi então que, como colhido por um toiro ou atropelado por um rooftop bus, na primeira segunda feira de Agosto, nessa cidade estrangeira de cor cinzenta e ar bucólico, vi aqueles ombros carnudos que amarrecavam... que amarrecavam com o peso de dois peitos cheios e descaídos; ombros camuflados por um cabelo loiro e fino sobre as costas, tão perfeita na sua incomparável imperfeição, tão segura na sua radiosa enfermidade, tão adulta na sua jorrosa infantilidade. Desperta o meu lado lobantuniano e aniquila a tendência saramaguiana que há em mim. Que vontade de escrever e descrever pormenores! Desorientado com tão demoníaca semelhança, paro em plena Queens Gate e sou engolido por um mar de gente enquanto a perco de vista. Um arrepio abraça-me quando o inexorável medo do sonho que se avizinha horas mais tarde, quando me deitar, me arrebata como um terrível presságio. Foi assim que, nessa noite, depois de os meus pais subirem para o quarto, saí sozinho – it's everything ok, sir? - yes, I just got issues with my sleep-. Entro num taxi – to Convent Gardner, please – deambulo até convergir num pub e – a large beer, please – subo até Leicester Square onde um club que promete num cartaz diversão 'american style' até altas horas chama por mim. Lá dentro um punk, que pela conversa me apercebi ser um mentecapto nacionalista, me toca num braço pois, pelos vistos, o polo da Fred Perrys que eu vestia é em Inglaterra símbolo daqueles que aclamam a injustificável superioridade da raça(?) branca. Estou sozinho e não estou com paciência nem arrisco debochar, por mais subtil que fosse, com um grupo de cabeças rapadas com cristas e coletes de cabedal, com o cheiro de dias de suor e cerveja, furados nas narinas e sobrolhos. Solto um cínico - yeah man, white power rules... - enquanto me afasto em direcção aos gent rooms. Lá dentro oiço o snifar dentro duma das cabinas e... brrrrrr... saio o mais depressa possível dali, em direcção ao bar, desalentado e sozinho, onde me dirijo a uma barmaid com ar de lésbica dominadora, corte de cabelo à militar, loira, alargadores nos lóbulos e trejeitos masculinos – james martin, double, one icecube - what happened, are you allright mate? - inquere-me com um sorriso quente - Ain't nothing wrong, ain't nothing right, although, I'm just here 'cause other way I'd be laying awake all night. À minha volta grupos de bifes e bifas histéricos saltitam ao som de 'you make a grown man cry...', e enquanto sorvo o meu whisky e vejo o meu reflexo no espelho por trás das garrafas do bar, penso quantas vezes terão Darwin, Newton, Shakespeare, Dickens, ou até o inevitável Pessoa deambulado melancolicamente nos mesmos sítios por onde agora me passeio, quantas ideias lhes terão surgido, quantas vezes terão sido apelidados de loucos, e quantas pessoas, barmaides, porteiros ou meros traunseuntes terão morrido na ignorância da interacção com espíritos tão imortais. Sinto o peso da herança londrina.

Pedem-me para desligar o computador. Presumo que estejamos a chegar a Lisboa. Um magnífico pôr-do-sol pinta as nuvens de um rosa suave. Ao longe já pareço ver o meu mar. Publico no blog mais tarde.