'O homem vulgar, por muito dura que lhe seja a vida, tem pelo menos a felicidade de não a pensar.'


Bernardo Soares in Livro do Desassossego






24/07/2010

16/07/2010

agora deixaste-me nesta onda...

'(...) mas não me deixe sentar na poltrona num dia de domingo'

14/07/2010

MJ a minha é mais esta!

04/07/2010

El diez
















'No me importa en que lío se meta

Maradona es mi amigo

y es una gran persona - El diez!'

18/06/2010

Esta brutal versão de K.I.M. de 'Meat is Murder' não estava no youtube, por isso servi a comunidade.

Requiescat In Pace, Rector


José Saramago pertence àquela nuviosa elite dos de que me orgulho, quase irrazoavelmente, que tenham nascido no mesmo sítio que eu. Afinal, a final, somos portugueses.
Hoje não vivemos na mera delimitação político-administrativa que é Portugal, assim organizada somente com o intuito de responder às necessidades organizativas e jurisdicionais.
Hoje não 'nasci aqui como podia ter nascido noutro lugar'.
Parece-me até que hoje não somos uma Bulgária ocidentalizada, terra de ciganos tementes ao dogma e à tradição, de homens indelicados e mulheres reverentes, receptáculos da germinação, criadas de adoração.
Hoje somos a terra de Saramago e Pessoa, Garrett e Reininho, Cunhal e Rêgo, vicariato de sublevação, na esteira do Reitor Insubmisso.

13/06/2010

Ambos lemos a Bíblia dia e noite, / mas tu lês negro onde eu leio branco

(...)
Both read the Bible day and night,
Though you read black where I read white
(...)                                        


William Blake, in The Everlasting Gospel (line 14-15)



V/A - The Smiths is dead (1996)


Tributo aos The Smiths

1. "The Queen Is Dead" The Boo Radleys 5:33
2. "Frankly, Mr. Shankly" The High Llamas 3:35
3. "I Know It's Over" The Trash Can Sinatras 6:16
4. "Never Had No One Ever" Billy Bragg 3:36
5. "Cemetry Gates" The Frank and Walters 4:15
6. "Bigmouth Strikes Again" Placebo 3:51
7. "The Boy with the Thorn in His Side" Bis 3:21
8. "Vicar in a Tutu" Therapy? 2:42
9. "There Is a Light That Never Goes Out" The Divine Comedy 5:18
10. "Some Girls Are Bigger Than Others" Supergrass 3:35

07/06/2010

30/05/2010

25/05/2010

CONTO - Que Violência É Essa Que Cheira A Ambre Solaire? (Parte I de III)

Que violência é essa que cheira a Ambre Solaire?

PARTE I de III

Numa esplanada aplaudida pelo sol ameno de Abril, confrontam-se dois homens. Cafés e portos, pernas cruzadas, tabaco de enrolar.

Imaginaste alguma vez a perfeição?, pergunta o aparentemente mais novo, com aquela condescendência no tom de quem sabe antecipadamente a resposta. É tão minuciosamente atenta à tua predilecção que te derruba, sustentando-te no cativeiro do seu fetiche, como numa gruta com maré-cheia, com o mesmo encantamento imberbe da espera angustiada do girassol entre os dois sóis.

O Outro não lhe respondeu. Fita-o, ao invés, com o sóbrio silêncio de quem não sabe o que dizer, mas que simula entendimento e cumplicidade.

Sim, decerto que já a imaginaste..., continuou o Novo. Mas tê-la-ás experimentado? Eu experienciei-a amiúde, e digo-te que é serena e suave, mas duma macieza astuta, como se te entendesse por absoluto.

O Outro endireita-se na cadeira, muda de posição. Observo-o com alguma indiscrição. Parece-me um desses licenciados cuja postura amadureceu no 3.º ano de faculdade; daqueles que pedem, com disfarçado sacrifício, whisky sem gelo; daqueles que sabem falar sobre actualidade política, económica, desportiva, mas nada mais, porque quando toca o abstracto ou o absurdo, já é coisa de diletantes e gente das artes. É um dr., ostenta a sua condição. Veste uma camisa de colarinho hirto por baixo dum pull-over de gola redonda. As mãos são fortes, à imagem das feições rudes onde a barba cerrada, feita à gillette, lhe colora o semblante duma cinzentude vulgar.

- Tens falado...? – perguntou finalmente o Outro, num tom abafado e solene, que lhe nem permitiu terminar a frase. – Não, retorque o Novo prontamente, enquanto os olhos lhe fogem ao redor.

A secura da sua resposta, somada à inquietação que transpirou de seguida, instituiu um silêncio perturbador que o onera duma rápida mudança de rumo. Então e o Pedro, como é que o gajo está, temos de combinar qualquer coisa, todos...

- Tchh, olha para aquela – interrompeu o Outro, enquanto trocava pesadamente a perna cruzada – ...aquela é que era! O Novo perseguia, com o olhar, mas não a pneumática mulher que deliciara a trivial atenção do Outro.

(continua)

21/05/2010

'Bush invaded a sovereign nation in defiance of the UN.

He's a war criminal! And now I'm supposed to be one of his disposable thugs with a fucking target on my head in the middle of the desert, waiting to be blown up by a car bomb rigged by a 12 year old who loved Friends and Metallica until one of our missiles blew up his house?!

I don't think so!'

11/05/2010



Heifer whines could be human cries
Closer comes the screaming knife
This beautiful creature must die
This beautiful creature must die
A death for no reason
And death for no reason is murder


And the flesh you so fancifully fry
Is not succulent, tasty or kind
It's death for no reason
And death for no reason is murder


And the calf that you carve with a smile
It is murder
And the turkey you festively slice
It is murder
Do you know how animals die?


Kitchen aromas aren't very homely
It's not "comforting", cheery or kind
It's sizzling blood and the unholy stench
Of murder


It's not "natural", "normal" or kind
The flesh you so fancifully fry
The meat in your mouth
As you savour the flavour
Of murder


No, No, No it is murder
No, No, No it is murder
Oh ... and who cares about an animals life?

19/04/2010

Que violência é essa que cheira a Ambre Solaire?

Que Violência É Essa Que Cheira A Ambre Solaire?

Parte II de III

(continuação)

O Novo perseguia, com o olhar, mas não a pneumática mulher que deliciara a trivial atenção do Outro.

- Há algo de terrificamente belo e ao mesmo tempo invulgarmente honesto na sombra de quem passa. Não há no mundo maior lealdade que a da sombra. Cúmplice, assiste-te no maior pecado, e soberba observa-te na mais maviosa bondade. Creio que sempre me pareceu a alma de quem persegue, despida de vanglórias. É verdadeiramente límpida. É como aquele momento único, sabes quando uma mulher, perfeitamente alinhada contigo, se estica e inclina a cabeça para trás para te chegar aos lábios? É quando lhe consegues ver os olhos semicerrarem e as pupilas dilatando-se em entrega, com o sangue subindo-lhe à face, corando-a de uma lascívia tímida que a embaraça, e mesmo antes de fechares os olhos sentes os corpos renderem-se ao peso do outro, e deixas de perceber como é que se mantêm em pé, e a última coisa que te lembras é pensar que o corpo dela parece estar dobrado para trás, como suspensa no ar, e absorves toda aquela fragilidade, tão crente em ti (!), e morres por um bocadinho?, sabes isso, sabes? Esse momento antes do beijo é beleza pura. A mesma beleza que encontras na sombra de quem passa.

Abandonei qualquer reserva para, incivil, me virar completamente na cadeira e observar o ar perturbado do mais Novo. O ritmo cavalgante atropelava-lhe as fiéis palavras. Humedecia os lábios a cada paragem e as sobrancelhas acompanhavam-lhe o desafogo. A sua expressão procurava algum assentimento do Outro, e o Outro... fitava-me com carregado cariz! E com razão. Dei um gole no café, olhei para as horas, estiquei as pernas, mexi no telefone, procurei o empregado, ouvi o Outro continuar:

- Continuas a ouvir Madchester, estou a ver... – Sim, diz o Novo, e continuou a falar, mas eu já não o ouvi porque só pensava no quão idiota tem um homem que ser para emitir tão desbotada interlocução a tudo a que o mais Novo tinha dito. Quão desprezíveis são esses encurtados de imaginação que sempre tentam etiquetar os outros, justificando-lhes as fantasias, circunscrevendo-os a alguma corrente. Quão moderada será a sua percepção, a ponto de o não deixar ver mais do que a palidez do meramente visível? Quão breves serão os seus conceitos que lhe não permitam abarcar tais paixões?

(continua)

15/04/2010

- Shoot him again.


- What for?


- Because his soul is still dancing.

02/04/2010

CONTO

Que violência é essa que cheira a Ambre Solaire?

Parte III de III

(continuação)

- Sou demasiadamente orgulhoso para achar que alguma mulher me ame; seria supor que ela sabe quem eu sou. Também me custa a crer que ame alguém; tal implicaria descobrir alguém da minha condição – lamuriava o mais Novo. O Outro baixou os olhos, endureceu a expressão, quis falar, manteve-se calado, disse por fim, - Suponho que seja verdade o que se diz no filme, a solidão é mesmo subestimada...

- Sem dúvida, e os olhos do mais Novo voltam a brilhar. E, doutro lado, as relações, as promessas, os compromissos, são sobrestimados. A sua erma condição é o relativismo. Na verdade, nada mais vale que o seu valor, e este é sempre aferido em relação a algo, sendo que tudo pode valer menos ou mais que tudo, comparativamente. Mas claro que não estou a falar de inconsequência, não me tomes por esses niilistas radicais que desdenham qualquer significação! Estou a falar da pueril imutabilidade de uma perturbação de alma que julgo eterna. Falo do meu inconformismo à razoabilidade do mero companheirismo, essa auto-imposta falácia colectiva, (e bem sabes que a crença força, quase que obriga a realização!). Claro que quem nunca sentiu o divino considera o mundano o requinte do ser. E provavelmente até sentiria essa sublimidade a que aspiro como inquietante e falsa.

O Outro sorri. Finge compreender.

- E a incredibilidade desses laços que nos unem, homem e mulher... – continua o Novo – mais não podem ser caracterizados senão como tragicamente melindrosos. Casamento? – ri-se – Só os gays e os religiosos é que se querem casar actualmente! Vês a ironia? Essa efemeridade latejante repercute-se até na economia e no modelo de trabalho. O indivíduo tem agora de ser móvel e adaptável. Os clássicos contratos de trabalho ad aeterno são raridades e a precariedade instalou-se. Nada dura, o instante rege. E o instante é egoísta. Uma relação só o é hoje, um compromisso apenas existe para trás e uma promessa só dura enquanto não se quebrar.

- Saber viver é saber adaptar-se..., riposta o Outro.

- Há uma bestialização concepcional que nos é inabdicável, por defeito. Somos todos filhos de um bando de bárbaros. E eu sou o filho, sou o herdeiro, de nada em particular. Apenas da minha obsessão em dissidiar. Ás vezes acordo de manhã só para abrir a janela e sentir a vida lá fora. Volto a dormir, a azáfama dos carros e das buzinas tranquiliza-me. Acordo depois do almoço dos outros, passeio despido pela casa, fumo e como. Depois deito-me e volto ao mundo real. – O Outro olha-o, estupefacto – Talvez a evolução da espécie passe por aí, pela marginalidade. Lá tenho tempo para existir.

- E existes mesmo? Parece-me que lhe foges..., diz o Outro, enquanto um sorriso mortiço lhe acentua a vulgaridade.

- Que culpa tenho, se a quebrantada intocabilidade de um afecto me agita o espírito e me amotina a razão?

- Parece-me que tu é que sobrestimas o que é simples e natural, insistiu o Outro, ostentando a sua pertinência.

- De forma alguma! Pelo contrário, redu-lo à descomplexidade com que Caeiro o interpretava. – Responde o Novo. Depois foge com o olhar, semicerra as pálpebras como se tentasse ler o longe. – Ou seja, concretizando-o em coisas simples: como a memória da violência daquele momento (que para mim assume a forma de uma brutidão desconcertante)... daquele momento perdido pelo Tempo e que já só relembro através da violenta sinestesia que combina o bege da areia e o azul do mar mais forte que o do céu, com o cheiro daquela pele impregnada de protector solar barato roubado num alisuper qualquer...

Subitamente, um estrépito ruído – duma forma sonora de kitsch que surpreenderia o próprio Gogol – perturba meia esplanada. O Outro atende. Frases curtas, desmotivadas. Tenho de ir, a patroa manda, apertos de mão, até qualquer dia, e nos olhos do mais Novo, que ficou sentado por mais um pouco, descobri aquele olhar com que os velhos ficam ao ouvir as histórias pujantes de vida dos netos. Demorei-me também. Até que o vi partir, primeiro nitidamente, com os olhos entretidos varrendo a esplanada, e os passos leves galgando a calçada; depois desvanecendo-se vagarosamente no meio da amotinada correnteza de gente que se dirigia para o Metro, naquele final de tarde.

Passados uns meses, vi o Outro num centro comercial num domingo de manhã, quando ia comprar uma barra de wax. Quase que o não reconhecia. Será a qualidade do que é vulgar susceptível de ser acentuada? Passeava-se em pegadas lentas, dominicais, com a camisa aos quadrados para fora das calças e o Tissot enfeitando-lhe o pulso, perseguido em pesaroso magnetismo pela mulher de cabelo escuro, sobrancelhas arranjadas e finas, feições sofridas e largas ancas; boa parideira, presume-se. Não há contacto, nem conversa. Não há nada nela que lhe peça água. Nem ele tem água para dar.

Quanto ao mais Novo, nunca mais o vi. Acho que quem souber povoar a sua solidão, saberá isolar-se entre as gentes.

Vejo-o às vezes. Sempre sozinho, sentado, fumando, sorrindo. O olhar remoto, apartada presença. É um homem só, um único inferno.

Vejo-o muitas vezes. Tantas, que até podia ser eu.

FIM