'O homem vulgar, por muito dura que lhe seja a vida, tem pelo menos a felicidade de não a pensar.'


Bernardo Soares in Livro do Desassossego






16/02/2009

O Elogio da Antipatia - Parte III de IV

III – As Acepções Adulteradas e A Desvantagem Popular

O problema das terminologias são os sentidos estigmatizados que, força da ‘girialização’ da linguagem, por via duma mecanização do discurso, e duma automatização das expressões, vão surgindo como pejorativos ou abonatórios. Afigura-se como óbvio que, quando elogio a antipatia não me refiro à má educação, rudeza ou aspereza de feitio. Antipatia é, pelo contrário, uma ausência de empatia pelos desconhecidos que connosco se cruzam – simplesmente porque não tem que existir; o indivíduo mais não tem que fazer senão respeitar o ‘espaço cívico’ do próximo, a sua privacidade e a sua esfera.

Naturalmente que a cortesia e a amabilidade são valores máximos do civismo, e que nada têm a ver com simpatia.
Simpatia é o que o povo tinha e tem por Salazar, é a amizade pelo vizinho que se espreita, é o imiscuir na vida alheia, o abelhudismo que é moeda nacional e o sentimento do ‘coitadinho’, bandeira hasteada no cume da lusitana mesquinhez; é a saudade, é ‘a minha humilde casinha, num modesto 1º andar’, e o ‘se há porta humildemente bate alguém, senta-se à mesa com a gente’; são os beijinhos e as palmadinhas nas costas, os sorrisos gratuitos e as modéstias indistintas; é a labrega e inconveniente ofertação de partilha e o consequente abuso de confiança; é o ‘santinho!’, ‘bom apetite!’ e ‘com licença, vou rasgar uma folha’ e é o ‘estás bom? – vai-se andando…’; é falar de mais e não atentar nas palavras, é desprover de significado e desgastar a língua egrégia, é provérbio e esperteza atónita; é morrer ignorante – pequeno tal como se nasceu; é comodismo e absentismo, é o desalento e o desencanto, é o costume e a moda, a tradição que não é nova que é sempre o que já era, é a Era que não renova, é chumbar sempre na mesma prova; é rir sem saber de quê, é o que eu vejo mas ninguém vê. E é abuso, grosseirismo obtuso e desuso, aos olhos de todos, menos da quimera do nobre povo luso.
Cada pessoa tem direito ao seu individualismo que só pode ser atingido plenamente com uma moderna noção de comunidade que já nada tem a ver com a realidade aldeana e saloia do século passado, mas com um respeito máximo pelo próximo que começa por não importunar a sua pessoa.

A mediocridade do povo enquanto classe social é, a meu ver, essencialmente demonstrada a dois níveis: o primeiro é o do seu profundo desinteresse (globalmente considerado) que resulta necessariamente numa opacidade espiritual; o segundo através duma infernal falta de educação e civismo.
Como tenho vindo a defender até aqui (mormente noutros textos como Mentecaptidão de um Povo e A Responsabilização da Burguesia), no âmbito do primeiro aspecto o povo encontra-se em paridade com classes sociais mais elevadas, padecendo ambos duma profunda mentecaptidão, manifestando-se subjectivamente em pessoas desinteressantes e na pequenez intolerante com que abordam as questões. Aqui, como disse antes, nada pode ser reprovável em relação ao povo, essa classe infantil, que não teve espaço para se desenvolver, e é altamente criticável em relação à burguesia, que só mais não fez por força duma (genética?) inelasticidade mental.
Mas é no segundo aspecto referido que as classes mais informadas levam a grande vantagem. É que, apesar de a grande maioria possuir a mediocridade espiritual do povo, gozam de uma polidez incomparavelmente superior à deste, onde esta é quase nula. E a diferença é abismal, pois a delicadeza é uma virtude inafastavelmente basilar para a convivência social. Eu não me disponibilizaria nunca a uma discussão com alguém que bradasse ou revelasse qualquer fervilhação bárbara. Pois as pessoas que facilmente se exaltam rapidamente perdem a razão, precipitando-se, e por conseguinte, revelando uma incoerência argumentativa, o que leva a que não demonstrem os seus pontos de vista, mas sim aqueles a que, imponderadamente, o momento os conduziu
.

14/02/2009

'C'est par la musique qu'a commencé l'indiscipline'.
Heráclito de Éfeso

03/02/2009

O Elogio da Antipatia (Parte II de IV)

II – A Absolvição Geográfica

Não me orgulho especialmente de ser português. Mas defino-me como tal, não renuncio à nação nem me prostituo com as cores duma bandeira que não a minha. Todavia, reitero o proeminente orgulho de ser europeu, e a convicção socrática de ser um cidadão do mundo, aberto a influências de outros povos, culturas, hábitos. A tacanhez proveniente dos povos que se fecham em si mesmos (verbi gratia, os povos árabes) é por demais evidente e deve constituir um anti-exemplo a todos os que, sob a haste dum patriotismo obsoleto, se manifestam como avessos à pluriculturalidade globalizante. Quem vê o mundo através das brechas duma janela embaciada considera que lá fora tudo é estranho e hostil. Costumes doutros homens doutros sítios afiguram-se-nos como bizarros; desta forma, impossibilitam-se de absorver o que de melhor têm as outras culturas, pois está estabelecido à partida um sentimento estigmatizante em relação ao que nos é alheio. É, pois, naturalmente, que concebo o meu fascínio por culturas mais a norte, à imagem do meu Pai e das minhas convicções sobre a forma de estar em sociedade, e usufruo das influências e inerentes juízos em relação ao perspectivismo de outras do mundo inteiro, mormente de uma certa espiritualidade oriental.

Homogeneizando o país numa palavra, decerto optaria por ‘grosseiro’. E no país dos grosseirismos, a rudeza e o provincianismo reinam, hegemónicas. Um certo transtorno obsessivo compulsivo estreita as ruas por onde passo. A gerentocracia com complexo de esquerda (estadistas da geração de Abril, que por lá estagnaram) deste país inunda-nos de parasitagem social, indigência e Estado-dependentes ansiosos pela fatia desmerecida do final do mês. E eu, preso no sítio onde nasci, sou enclausurado pela pequenez do que me rodeia. Desde as pessoas, os seus juízos prévios, a sua mediocridade, aos seus hábitos. Por exemplo, um sítio como o Lux é-me já quase tão inóspito quanto um mercado ao sábado de manhã. A claustro e a agorafobia estão, em mim, perfeitamente alinhadas com a petulância e a incapacidade de partilhar espaços com a obtusidade dos outros. Voyeur dos espaços públicos, tudo lhes estudo e – abstraindo-me dos estigmas – tento-lhes perceber a essência: e essa pequenez é miseravelmente evidente!
A reprovação que me atinge no olhar dos cépticos, dos ‘politicamente correctos’, ou daqueloutros que atingiram certo altruísmo universal ou certa noção lata de comunidade assente num conceptualismo igualitário balizado pelo amplo desmérito e desqualificação, suscita em mim a peculiar estranheza distanciada de um adulto normal face ao perfeito descabimento de um idoso senil. A incorrecção convencional das minhas opiniões deveria ser jubilada – e a delicadeza com que a exponho imitada pelos que nela se vêem expostos!

02/02/2009


Have you ever seen a one trick pony in the field so happy and free?
If you've ever seen a one trick pony then you've seen me

O Elogio da Antipatia (Parte I de IV)

I – O Incontornável Ascendente

Foi por culpa da minha Mãe que a simpatia me passou a saber ao adocicado servilismo dos seguidores. Tal como Émile Zola, ‘J’accuse!’. O máximo expoente da solicitude que conheci – fruto da bondade e afectividade da minha Mãe, no limiar do humano, e ao mesmo tempo sua máxima definição – criou-me no espírito um condicionalismo adverso à simpatia latina, que foi evoluindo ao longo da vida; actualmente as minhas concepções de simpatia e provincianismo são absolutamente híbridas, tal como as de dolo eventual e negligência consciente em Direito Penal. De facto, é-me extremamente árduo dissociar alguém simpático, extremamente prestável e solícito, de alguém abelhudo, imiscuído nas vidas alheias, subserviente e humilde (e a humildade é o calcanhar de Aquiles do cinismo – cinismo tão útil a maior parte das vezes!; tão mesquinho nesta vertente).

Foi pela imitação da austeridade do meu Pai que adoptei, desde sempre, a pose altiva com que alguns me vêem. Mas muitos anos mais tarde, quando os juízos de valor passaram a assentar mais no empirismo do que na precipitação, percebi por fim que a sua austeridade nada deve à altivez ou pretensão; tem a ver com a sua perspectiva de civismo e bom-senso. A antipatia e inacessibilidade com que é retratado não passam afinal dum extremo pudor, integridade inabalável, sobriedade virtuosa, postura conservadora (e retrógrada, manifestamente) e de uma necessidade de privacidade e de recatez que se vai repercutir na forma como interage com os outros: com um distanciamento frio, objectivo, educado, e um trato pragmático, ponderado, sintetizador. Apesar da minha obsessiva avaliação permanente de tudo o que me rodeia, são parcos os exemplos de quem concilie no espírito humildade e inacessibilidade. O meu pai consegue-o, fruto de uma tremenda sensatez que não possuo e julgo vir jamais a possuir, fruto dum condicionalismo e vivência radicalmente opostos dos seus.

Mas apesar da intolerância de que me fui revestindo em relação à simpatia da minha Mãe – que conversa com empregadas nos hotéis e se comove por tudo e por nada, tão subserviente à vontade do meu Pai, onde perdeu a autonomia há tantos anos – esta empatia exerceu em mim influência preponderante, concedo. E foi a dicotomia dos dois extremos de direcções opostas que os meus pais encerram que acabou por formar em mim carácter frio e impenetrável, segregador e dissidente em relação aos demais, e comocionado, protector e possessivo com os meus. Em defesa do rigor científico e analítico do meu pensamento, devo conceder que a petulância, megalomania e narcisismo que me assolam provêm de circunstâncias diversas destas, na minha opinião indissociáveis do esforço insípido e duma languidez que agora procuro combater, e que nada têm a ver com os meus pais. Importante nesta fase é realçar a importância do ascendente da minha Mãe na humanização do meu espírito, incutindo-lhe alguma benignidade misericordiosa e uma afectividade inabalável tão própria dos povos latinos, e a conduta irrepreensível do meu Pai, ídolo maior, porém inatingível, detentor duma hombridade que me guia e que tento, ingratamente, adaptar aos dias em que vivemos, estranhos aos seus, e à minha própria índole, mimada, facilitada, hedonista, tão longe do seu método, tão díspare do seu espírito de trabalho, rígida disciplina e aquela auto-contenção que só possuem os que, com sacrifício pessoal, subiram a pulso na vida.

29/01/2009

a melhor banda portuguesa de todos os tempos VS. o melhor som português de todos os tempos


'Por parecer latina suponho que o nome dela
É Maria
Que é casta, eu sei, se é virgem ou não depende
Da nossa fantasia'

27/01/2009

‘ (…) Foi por isso que, apenas a idade me permitiu sair da sujeição dos meus preceptores, deixei completamente o estudo das letras. E, resolvendo-me a não procurar mais outra ciência a não ser a que pudesse descobrir em mim próprio, ou então no grande livro do mundo, empreguei o resto da minha mocidade a viajar, a ver cortes e exércitos, a frequentar pessoas de diversos feitios e condições, a recolher diversas experiências, a experimentar-me a mim próprio no que a fortuna me propusesse, e por toda a parte a reflectir de tal maneira sobre as cousas que se apresentassem que delas pudesse retirar qualquer proveito.

Efectivamente, parecia-me que poderia encontrar muito mais verdade nos raciocínios que cada um faz sobre os assuntos que lhe interessam, e cujas consequências logo se sentem no caso de ter mal julgado, do que naqueles que, no seu gabinete, formula um homem de letras cujas especulações que não produzem efeito algum e que não têm para ele outra consequência a não ser a de aumentarem tanto mais a sua vaidade quanto mais afastadas estiverem do senso comum essas especulações, em virtude do muito espírito e artificio que têm de empregar para as tornar verosímeis. E em mim era sempre grande o desejo de aprender a distinguir o verdadeiro do falso, para ver claro nas minhas acções e caminhar com segurança na vida. (…)’

René Descartes, in Discurso do Método

23/01/2009

Abnegação...

Chovam lírios e rosas no teu colo!
Chovam hinos de glória na tua alma!
Hinos de glória e adoração e calma,
Meu amor, minha pomba e meu consolo!

Dê-te estrelas o céu, flores o solo,
Cantos e aroma o ar e sombra a palmar.
E quando surge a lua e o mar se acalma,
Sonhos sem fim seu preguiçoso rolo!

E nem sequer te lembres de que eu choro...
Esquece até, esquece, que te adoro...
E ao passares por mim, sem que me olhes,

Possam das minhas lágrimas cruéis
Nascer sob os teus pés flores fiéis,
Que pises distraída ou rindo esfolhes!

Antero de Quental

21/01/2009

Memento Mori

O peso da minha existência, com o qual carrego desde que plenamente Sou, fere-me ocasional e inesperadamente com os cortes ardentes da angústia impotente. Como podemos rir e chorar, descontrair e esperar, se um dia morreremos e se esse será, porventura, o fim? Não concebo o vácuo da inexistência. Nem a eternidade asfixiante. Inexistir para sempre? Eternidade é uma palavra demasiado grande para mim. Os meus estreitos conceitos, limitados pela minha condição humana e inerente compreensão, não abarcam a titânica acepção do termo.

E nós, agora? Estes breves momentos em que contemplamos o dom de Ser são a nossa aparição divina. Eu e tu somos os actores dum palco maior, num preciso momento e exacto lugar da magnífica Concepção. Este é o nosso estado de graça, somos salteadores do Tempo, crescendo, vivendo, e, insignificantemente hegemónicos, pseudo-dominando épocas e ecossistemas. Somos os privilegiados espectadores da vida e do momento, sempre tementes do seu trágico desfecho, expectantes do póstumo desígnio. Ou então somos dançarinos do grande orquestra celeste, ou equações químicas resultantes de milhões de condicionantes e processos passados. Ou somos dois figurantes num estúpido argumento dum filme de segunda. Por muito que eufemística ou misticamente perspectivemos, embelezados, a razão, certo é que morreremos. Tu e eu.

Passado. Não mais é do que o futuro, usado. Futuro doutrora, e doutros. Que morreram. Mas já eles tiveram onde nós estamos. E também eles riram, triunfaram, falharam, desperdiçaram o seu tempo no teatro da existência ou então conseguiram coisas fantásticas e viveram vidas fabulosas. Também tiveram filhos, protegeram-nos e amaram-nos, sofreram quando enterraram os pais e hesitaram em dúvidas sobre o fim. E preencheram os dias com amor, esse sentimento infernalmente supremo, tendo provado da sua depressão e euforia, saboreado e aprendido a definição de pleno. Cantaram lamechices românticas, veneraram pormenores insípidos e juraram amor eterno. E hoje, todos eles estão mortos.

A minha arrítmica obsessão de tempo desperdiçado impera: como ser, e para quê ser, presumindo que tudo é efémero e inglório. Interiorizo as definições de vão e finitude e isso assusta-me mais do que tudo. É a nossa própria mortalidade que nos mortifica em vida. O receio da morte nos falar com voz profunda para, no fundo, nada nos dizer… A morte esconde-se nos relógios, na penumbra quase inteligível dos carrascos ponteiros. O único consolo é crer que esta terá mais segredos a revelar que a própria vida. Ou então esperar que, quando o derradeiro momento se aproximar, estejamos demasiado velhos e cansados para atingirmos a sua trágica dimensão. Memento mori. Be mindful of death. Consciencializa-te da tua morte.

16/01/2009

Ao Santos

A (recente) guerra de perfis que temos vindo a observar neste meio levou-me a visitar o teu. Espantado por te definires como lisboeta, ofendido pelo ultraje da usurpação, decepcionado pelo esquecimento das origens, compus alguns versos populares (à la António Aleixo) dedicados a ti, a que fraternalmente chamei:

Santos Se Desprezas Tua Raíz, É Porque Te esqueceste De Como Foste Feliz

Santos, o petiz tímido
Que à escola ia, contrariado.
Ninguém brincava com este menino,
de ar pálido e enjoado.

Santos, o adolescente esquisito,
à sua terra sempre renegou.
Sentava-se na estação, a ouvir o apito
Do comboio em que um dia abalou.

Santos, o beirão recém-chegado
À minha Lisboa, terra do fado:
Nunca disse 'esposa', 'falecer' ou 'derivado',
'Deu por ele', já estava integrado.

Santos, Homem de Seia!
Reclama o que 'tem para si' como seu.
Branca? Nunca mais foi a sua meia,
Ele é maior do que a terra em que nasceu!

Responder ao Vento Leste

estrutura 4 7 4 4 7 4 4 7 4

Não fui surfar, já passa das duas e cedo escurece.
É Domingo e ainda estou na cama…
Não sairei de casa – ignoro a tua prece!
E essa birra que só serve quando se ama.

Hoje, o dia inteiro vou ficar deitado:
Daquela ansiedade, anestesiado
Do frio cortante, reconfortado
Das horas que passam, alheado
Da ausência em mim, alienado.
Quero fumar esta, e depois, intoxicado
Fumar outra, e outra, inconformado.

Não vou ao Mac, nem à taberna galega…
Nem ao Santini, que deve estar a abarrotar.
Não quero pizzas… Vou mandar vir sushi!
Tens €20 que me possas emprestar?

Acabou-se o tabaco (é sempre o primeiro a acabar…)
Não tens pontas? – Procura lá bem!
Não vou ao centro comercial, nem pensar…
No máximo vou à bomba, e sais tu, ‘tá-se bem?

Não quero saber do Zé nem da Teresinha…
Porque é que só falas de merda, posso perguntar?
Não te metas na vida dos outros, nem na minha!
Foda-se, porque é que não fui surfar?
Tenho que arranjar tabaco para te dar de fumar…
Pelo menos por 20 minutos consigo-te calar
Com esses 8 ou 9 bafos que costumas dar.

Começou o teu filme, e eu sei que estás pedrada
Podes vê-lo baixinho? (não te custa nada)
Quero recostar-me e ler Descartes
Aproveitar o que resta desta tarde.

Desde o burlesco ao decadentismo,
Do Discurso do Método ao niilismo,
Sou hedonista, curioso e contemplativo,
Mas dos teus assuntos absortamente me privo.

E agora, eu sou cínico ou frio, por te não falar?
Crê-me, eu sei bem, é tão mais fácil culpar…
À luz do teu feitio estereotipado
Claro que tudo o que te disse é pecado!
(Naturalmente, por ti desde logo censurado)
E se me achas mesmo depravado
É a miopia do teu espírito estagnado e limitado.

Mas, rogo-te, inquere-te: o que é que terás para dar
Quando a cruel fealdade da idade te atacar?
Tu és fútil e coquete: vais envelhecer e ser dondoca
Uma tia petulante, preconceituosa e com personalidade oca!

13/01/2009

' (...) é Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, tão fiel ao homem, acaba por ser palavra de escândalo no seio do próprio homem.

Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem sequer são capazes de imaginar.

Palavra de aflição mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa até quando nos diz o silêncio,

pois esse ser sedento de ser, que é o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura é uma reconciliação, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presença e ausência, plenitude e carência. '

09/01/2009

Mentecaptidão de um Povo e a Responsabilização da Burguesia

‘Uma forma de o medíocre convencido imitar a grandeza é não dizer mal de ninguém.’ Vergílio Ferreira

As classes ociosas de uma nação sempre foram a vanguarda do pensamento humano. Só as hostes da languidez poderiam, através dos seus métodos diletantes e lentos, ponderar as reacções do homem com o meio envolvente. Exigir-se reflexão e pensamento abstracto às massas é tão egotista quanto exigir-se a um padre que saiba lutar. As massas estão tão embrumadas na sua luta mensal pela sobrevivência sócio-económica que lhes não pode ser exigida a meditação e cultivação que procuram aqueles que não precisam de trabalhar tanto.

A visão humana, peculiarmente, só alcança na proporção na própria abertura de espírito. É por isso que as classes mais baixas abusam tanto do sal nos cozinhados – porque a sua vivência não lhes deu acesso a outro tipo de condimentos; e por que a classe média come muito mais carne do que peixe, e mais hidratos de carbono do que vegetais – porque esse tipo de informação não foi cultivado, estando demasiadamente ocupados com o trabalho de modo a suportar as prestações e contas para poderem ainda desenvolver preocupações alimentares elitistamente a longo prazo.

Todavia as classes mais elevadas não estão, de forma alguma, isentas à crítica. Conquanto que em relação à classe média e à classe mais baixa é condenável qualquer tipo de pedantismo intelectual, pelo demonstrado no exemplo supra, já no que toca àqueles que mais recursos têm, e, por conseguinte, mais tempo, mais qualidade de vida e mais acesso à cultura, é inqualificavelmente reprovável o desprezo demonstrado pelo pensamento e enriquecimento espiritual.

Almada Negreiros escreveu: ‘O que os burgueses portugueses têm de pior que os outros é o facto de serem portugueses! ’. De facto, aqueles que detêm maior parte do capital estão intoxicados pelo turpor da ostentação, pelo consumismo compulsivo, pelo mau-gosto do exagero, pelas irrequintadas cores berrantes do mundanismo. O consolo dos que da mediocridade padecem é o facto do génio alheio não ser imortal.

A globalização do conceptualismo segundo o qual as drogas encerram um em si não mais do que um escape, contribui unicamente para a exacerbação das limitudes da grande maioria dos que as consomem. Numa conversa com um amigo recentemente licenciado em psicologia formulei a concepção segundo a qual as pessoas que consomem drogas se dividem em dois tipos, para efeitos socializantes: por um lado, os que gostam de conversar desenvoltamente, expandir raciocínios mesmo, por vezes, sozinhos, de modo a conhecer melhor a sua mente; por outro, a maioria, aqueles em que o consumo surge como mero analgésico, receando pensar, estar sozinhos, conversar longamente, limitando-se à obsessão pela música, entrando assim em autêntica dissociação com o que os rodeia, revelando medo de si próprios, e uma profunda mentecaptidão.

E o tempo, amachucado, é deitado fora por via de entretenimentos energúmenos. Convivem cada vez menos: as discotecas são o exemplo paradigmático de como pertencemos a uma geração cujo divertimento de eleição é permanecer horas enclausurado num armazém bafiento e enfumarado, com ensurdecedora música comercial, reduzindo a comunicação a breves gritos ao ouvido dos demais.

Os recursos são gastos de forma a terem um carro mais alemão do que o colega. Consomem, quotidianamente, de uma forma que não pode deixar de ser qualificada como camaleónica: capazes de despender certa quantia por um pull-over Ralph Lauren, optam pelos preços solidarizantes do Lidl para as compras da semana; adquirem sempre o último modelo das novas tecnologias, seja um telemóvel com navegação por satélite ou um LCD de última geração com leitor de blue-ray, mas são incapazes de comprar um fabuloso queijo Havarti ou a raridade fumada do salmonete.
O que se consegue de borla custa demasiado.
John Keynes condenou-nos: ‘a longo prazo, todos estaremos mortos ’.

Dissocializando

O instinto sociopático torna-se em mim, de dia para dia, tão natural como o acto de pestanejar. Reflexo, irreflectido, banal.

À minha volta as massas vivem num tempo de trevas, inteiramente inebriados pelas convenções societárias, que mais se me não afiguram do que as cordas com que são marioneticamente maneados. O ser vulgar, homem médio, sub-existe inerte por entre a anestésica rotina de discotecas e bares, futebol e televisão, filmes e música que lhe é impingida. A cultura livre não existe, pois os parâmetros estão preconcebidos de forma a encarreirar as massas nas baias do absentismo. E a moral – a moral é a monstruosa criação de séculos de trevas, de neblinosas concepções absolutistas sobre Deus e o Homem, Religião e Estado, Nação e Estado, Forma de Estado e Indivíduo. Não provoca, porquanto, qualquer choque em mim afirmar que a Moral está morta.

Apaticamente o reitero. Mas, ao invés de praticamente toda a escola neo-intelectual do Ocidente da última metade do século XX, não defendo a amoralidade do ser (nem, por maioria de razão, a imoralidade, como algumas alas mais radicais, designadamente em certos círculos parisienses, parecem tendenciar). A meu ver, a moral assentará basilarmente sobre a família. Este seria o núcleo da sociedade que eu proporia, à volta da qual se ergueriam mecanismos proteccionistas e desenvolvedores do mesmo.

Não será harmónica a minha posição, visto pender por vezes para o conceito de família-instituição – indubitavelmente a preponderante – tal como Engels propõe a dialéctica monogâmica em Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Certos sectores, valorativamente anarcas, bradariam certamente ao atingir o proposto. Mas a interpretação tacanha é o desastre do espírito; e o espírito inobservante é o atolo da imaginação, o atrito do progresso. Daí que urja ressalvar de imediato que defendo a total libertinagem de espírito, dentro do livre-arbítrio jurídico-social que incute a cada indivíduo a escolha e consequência dos seus actos (desde que, evidentemente, não sejam nocivos à sociedade, em geral, ou a um terceiro indivíduo, em particular).

Involuntariamente fui perdendo a identidade com o povo a que pertenço. A sociopatia instala-se lentamente. Por vezes apercebo-me que, alheado, estaco na rua observando outros que se parecem comigo, têm a minha pele e o meu cabelo, movem-se como eu, falam a minha língua, riem-se da mesma forma que eu e, não obstante, surgem-me como uma espécie absolutamente estranha. Não concebo uma conversa com um destes seres, tal como não o faço com um cão. A interacção é extraordinariamente limitada e atroz, reduzindo-se ao minimalismo linguístico que permita um entendimento fugazmente civilizacional. Discutir temáticas relevantes, questões profundas, áreas transcendentais com criaturas de índole tão dispare da minha é-me tão inconcebível quanto pedir uma explicação algébrica a um peixe. A sociopatia vence, e governa imperialmente! Tal como a gripe, propaga-se àqueles com que convivo. A culpa pesa-me amiúde, mas como um latejo – pelo que, intermitentemente, me sabe à glória beatificante da influência em espírito alheio.

08/01/2009

No tempo em que se festejava o Natal
O coração acelerava quando acabava a escola.
Receber a família, brincar com primos, fazer coisas que tal…
É o Natal passado que agora me assola.

Depois o Natal foi, mais do que receber presentes
O gozo supremo de tos querer dar.
Viver a época através dos teus olhos, inocentes
E sentir aquela azáfama de to preparar.

Hoje o Natal não mais é do que um dia
Em que me dói a cabeça e o universo.
Tal como Agosto, só me traz melancolia,
E a absurda ausência em que tropeço.

07/01/2009

'Nunca presto atenção ao fazem as pessoas vulgares, e nunca interfiro com o que fazem as pessoas fascinantes.'

Lord Henry
in The Picture of Dorian Gray