'O homem vulgar, por muito dura que lhe seja a vida, tem pelo menos a felicidade de não a pensar.'


Bernardo Soares in Livro do Desassossego






27/10/2010

No espelho fleumático da imperturbável selva concreta, entardeço. De que serve a coroa, se não serve a mais ninguém?

Passaram dias, anos, minutos. Até que olhasse de novo ao redor. E o mais inquietante é o facto de usar essa dor na lapela do casaco como o charme de um viúvo amoldado, caminhando como o George Lamb mas sem os tiques demasiadamente efeminados e com a mesma dureza equivocada que a voz de um estranho num atendedor de chamadas, só por nunca ter compreendido como raio é que ela ali foi parar, semi-nua no quarto de outro qualquer.

Suponho que o blasé se estatifica na alma e a inconsequência nos actos quando não há mais nada que o silêncio mortificante do barulho ensurdecedor de todas as vozes excepto a sua.

A felicidade é um momento, tal como o nascimento, o golo, a garfada, em que mais nada importa. (Perdoe-se-me a ausência de concordância verbal em número, mas) a felicidade são aqueles lábios doces, tementes ao cieiro, furtivamente cedidos – deliciosamente humedecidos –. Creio que felicidade é a ilusão sucessória do antes, como a utópica interrupção da inexorável continuidade do tempo; é uma consequência e não um objectivo!
Onde estaríamos nós se não te amasse para sempre mas apenas até à próxima manhã? Provavelmente, no limbo impassível onde estou agora.

20/10/2010

'They keep you doped with religion, sex and TV,
And you think you're so clever and classless and free,
But you're still fucking peasents as far as I can see.'

John Lennon



16/10/2010

10/10/2010

Presumptuous? Brilliant.

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30/09/2010

'A moda é a imitação daqueles que não querem dar nas vistas, por parte dos que o querem fazer. Daqui resulta a sua constante mutabilidade.' Paul Valéry dix



'A mudança das modas é o imposto que a indústria do pobre lança sobre a vaidade do rico.'
Sébastien-Roch Nicolas de Chamfort (Humorista 1741)

25/09/2010

'Some people say marijuana should be legalized... Well I think it should be mandatory.' 

Bill Hicks (1961-1994)



'Hicks material was often controversial and steeped in dark comedy. In both his stand-up performances and during interviews, he often criticized consumerism, superficiality, mediocrity and banality within the media and popular culture, describing them as oppressive tools of the ruling class, meant to 'keep people stupid and apathetic'.'

21/09/2010

Praia do Barril, Tavira, Abril de 2010.

11/09/2010

"Porque é que os portugueses são tristes? Porque estão perto da verdade. Quem tiver lido alguns livros, deixados por pessoas inteligentes desde o princípio da escrita, sabe que a vida é sempre triste. O homem vive muito sujeito. Está sujeito ao seu tempo, à sua condição e ao seu meio de uma maneira tal que quase nada fica para ele poder fazer como quer. Para se afirmar, como agora se diz, tão mal.

Sobre nós mandam tanto a saúde e o dinheiro que temos, o sítio onde nascemos, o sangue que herdámos, os hábitos que aprendemos, a raça, a idade que temos, o feitio, a disposição, a cara e o corpo com que nascemos, as verdades que achamos; mandam tanto em nós estas coisas que nos dão que ficamos com pouco mais do que a vontade. A vontade e um coração acordado e estúpido, que pede como se tudo pudéssemos. Um coração cego e estúpido, que não vê que não podemos quase nada.

Aí está a razão da nossa tristeza permanente. Cada homem tem o corpo de um homem e o coração de um deus. E na diferença entre aquilo que sentimos e aquilo que acontece, entre o que pede o coração e não pode a vida, que muito cedo encontramos o hábito da tristeza. Habituamo-nos a amar sem nos sentirmos amados e a esse sentimento, cortado por surpresas curtas, passamos a chamar amor. E com verdade. No mundo das ausências, onde a tristeza vem de sabermos muito bem o que nos falta, a nós e àqueles que nos rodeiam, a bondade, que nos torna vulneráveis aos sofrimentos daqueles que nos acompanham e nos faz sofrer duas vezes mais do que se estivéssemos sozinhos, é o preço que pagamos por não sermos amargos.

É graças à bondade que estamos tristes acompanhados. Há uma última doçura em sermos tristes num mundo triste. Igual a nós."


Miguel Esteves Cardoso, in As Minhas Aventuras na República Portuguesa

31/08/2010

Morreu.


Tão somente. Sem avisar, sem dizer que já não vinha, sem forças para encostar a mão à minha.
Naquela cama que A prendia, com aqueles tubos que não entendia, a soro porque já não comia.
Depois da azáfama, não é fácil acabar nos quatro muros duma cama, que nem sequer era A sua, mas que foi o Seu mundo por um mês.



E eu ali, tão afastadamente perto.
E eu ali, a pensar comprar um cinto novo, hoje esteve imenso calor, vou jantar não sei onde.
E Ela ali, com a existência a dissipar-se a cada fôlego, a respiração pesada e rápida, os tubos e a máscara, o calor e o sufoco.
E Ela ali, a testa sem rugas, as mãos macias, os ombros brancos, os lábios trémulos, os olhos descrentes na continuidade, cansados de abrir. Mas de cada vez que os abria, quando eu A chamava, via aqueles olhos lindos, repletos.



– Vinte anos antes, o quarto dos brinquedos, eu e o meu primo e os piratas e o barco e os cowboys e o forte da playmobil. E Ela a aparecer à porta, com bolo e com sorriso e com amor e com tanto que eu não consegui retribuir. Se a juventude soubesse, se a velhice pudesse. Não sabíamos todos, então, que a morte se esconde nos relógios –



E nós aqui,
a questionar a dignidade dos últimos tempos, a derradeira solidão, a constrição de ver o marido no hospital, o medo de estar sozinha, a queda, a coragem de se arrastar até ao telefone, a vontade de viver,
e eu ali, de pé na ambulância, a pompa face aos paramédicos, a merda do nome completo, o tom enfatuado, a arrogância que não soube esconder mas só porque não queria que A tratassem como outra qualquer.
E ela ali, rendida à maca, fendida pela dor, a memória é traiçoeira e hoje creio que havia um brilho à Sua volta, era Madona Esterhazy de Raphael, os olhos devotos em mim, e eu ali.



Passaram tantos anos – quantos anos foram? – que já não o sei fazer. E aqui, escondido, humilde e desarmado, só sinto a cara esticada, um arrepio dorido na garganta e na mandíbula e as memórias que me salgam os lábios. Não há desespero ou angústia. Só o vazio de nunca mais poder chamar-Lhe Avó.



A morte fala-nos com uma voz profunda para não nos dizer coisa alguma.



Imagino que pouca gente entenderá o que Ela fez por mim.
O que Ela fez.



E eu aqui, entre os que ficaram, só queria partir, sentir-Lhe o colo e ver o esquadrão classe a, telefonar-Lhe e fingir que sou outra pessoa, ouvi-La pedir que não saia hoje porque está frio. Agarrar-Lhe as mãos velhinhas e explicar-Lhe que a gratidão não prescreve, porque o amor olha a morte com ares de soberba, tomando-a por indigna de si.



Não há frases presunçosas ou conclusões silogísticas. Só o que sinto, adoro, admiro, quanto faz parte de mim e quanto conservarei para sempre. Não sei se Lho disse vezes suficientes; queria tê-lo repetido até ao expoente da demência.



07/08/2010

So proud of Mandela

'After 27 years in prison, they could not break him. He still comes with the same message.'
O crescimento da comunidade frutifica no indivíduo um interesse novo que o aparta da sua pena pessoal, da sua aversão à sua própria pessoa. Todos os doentes aspiram instintivamente a organizar-se em rebanhos, o sacerdote ascético adivinha este instinto e alenta-os onde quer que haja rebanhos; o instinto de fraqueza forma-os, a habilidade do sacerdote organiza-os.
Não nos enganemos: os fortes aspiram a separar-se e os fracos a unir-se; se os primeiros se reúnem, é para uma acção agressiva comum, que repugna muito à consciência de cada qual; pelo contrário, os últimos unem-se pelo prazer que acham em unir-se. Porque isto satisfaz o seu instinto, assim como irrita o instinto dos fortes. Toda a oligarquia envolve o desejo da tirania, tremendo continuamente por causa do esforço que cada um dos indivíduos têm que fazer para dominar este desejo.


Friedrich Nietzsche, in Genealogia da Moral

24/07/2010

16/07/2010

agora deixaste-me nesta onda...

'(...) mas não me deixe sentar na poltrona num dia de domingo'

14/07/2010

MJ a minha é mais esta!